Com mais de três décadas dedicadas ao Carnaval carioca, Carlinhos Salgueiro se consolidou como uma das referências na preparação de rainhas e musas que brilham na Marquês de Sapucaí. Diretor artístico da Acadêmicos do Salgueiro, ele já trabalhou com nomes como Sabrina Sato, Paolla Oliveira, Viviane Araújo, Lexa e Juliana Paes.
Em 2026, porém, o profissional passou a viver uma experiência diferente: ganhou projeção nacional ao assumir a preparação de Virginia Fonseca para sua estreia no Carnaval do Rio como rainha de bateria da Grande Rio.
A parceria ampliou o alcance do trabalho de Carlinhos e também trouxe novos questionamentos. Além das críticas direcionadas à influenciadora, o coreógrafo precisou lidar com a curiosidade do público sobre sua atuação na preparação de uma rainha de uma escola concorrente do Salgueiro.
Em entrevista exclusiva ao portal DisseMeDisse, Carlinhos revisitou momentos importantes da carreira, explicou sua metodologia, avaliou a evolução de Virginia e falou sobre como aprendeu a lidar com a exposição e as críticas.
Carlinhos relembra que seu trabalho começou a ganhar repercussão muito antes da era das redes sociais.
“Eu comecei a fazer um trabalho com as meninas, que eram 14 meninas, e de repente repercutiu. Eu viralizei 25 anos atrás e vi que essas meninas viraram referências, que hoje são artistas, bailarinas, modelos, cantoras.”
Foi observando a trajetória dessas mulheres que o coreógrafo percebeu a dimensão que seu trabalho havia alcançado.
“Quando eu vi todo mundo se espelhar nelas, eu vi que o que eu fiz estava tendo uma repercussão boa. E aí eu senti que eu estava mudando o Carnaval.”
A sensação de reconhecimento também aparece quando ele fala sobre algumas das mulheres que passaram por sua orientação e se tornaram símbolos da folia carioca.
“Eu me sinto muito feliz porque era tudo muito difícil e eu criei a minha própria metodologia em ver os meus passos e ver o que eu estava criando, estava mudando o cenário do Carnaval.”
Para Carlinhos, existe ainda uma relação pessoal com os movimentos que ensina.
“Durante um bom tempo da minha vida, me ver nas pessoas, até hoje, me faz muito bem. Quando eu vejo os meus movimentos em outras pessoas fazendo, aí eu me sinto muito feliz, como se eu estivesse eu mesmo dançando.”
Apesar de décadas de atuação no Carnaval, Carlinhos admite que a exposição conquistada nos últimos meses foi algo completamente novo.
“Mudou totalmente, mudou tudo. Eu sempre trabalhei com Carnaval, eu sempre viajei com Carnaval, eu sempre tive uma história dentro do Carnaval, mas não tinha essa projeção toda.”
O aumento da visibilidade, segundo ele, inicialmente causou certo receio.
“No começo me assustou muito. Eu não estou acostumado com essa mega projeção. Tem um lado bom, tem um lado ruim também, mas para minha carreira foi muito gratificante.”
Com o passar do tempo, o coreógrafo afirma ter aprendido a aproveitar melhor a nova fase.
“Eu fiquei com muito receio, mas agora estou com mais cautela e estou conseguindo curtir o lado bom da projeção e da divulgação do meu trabalho.”
Carlinhos também destaca a importância de o público conhecer o profissional por trás das coreografias.
“Saber que agora as pessoas têm interesse em saber um pouco de mim, isso é muito importante. Então, eu agradeço muito a equipe, a própria Virginia, mas o povo saber um pouco da minha história é muito gratificante.”
Ao falar sobre os primeiros encontros com Virginia, Carlinhos não esconde que encontrou dificuldades no início do processo.
“Ela chegou muito crua e chegou com uns vícios que foi muito difícil de tirar. Ela não tinha autoconfiança, ela tinha medo de tudo.”
Por isso, antes mesmo de trabalhar os movimentos, o coreógrafo decidiu investir na confiança da influenciadora.
“E a primeira coisa que eu fiz é ela acreditar nela. E tudo é muito novo.”
Carlinhos explica que o samba exige tempo, dedicação e uma preparação que, em muitos casos, leva anos.
“Todo mundo que trabalhou comigo, que hoje se destaca, tem no mínimo dez anos, cinco anos. É dedicação, é como se fosse uma formação clássica.”
Sua metodologia reúne diferentes referências.
“A minha técnica é uma técnica apurada, oriunda do balé clássico, da dança afro e da minha consciência corporal com o morro, porque eu sou cria do morro.”
Segundo ele, a conexão com Virginia também precisou ser construída gradualmente.
“A gente não conseguia se conectar para eu saber o que ela realmente gostava de fazer para eu moldar o processo dela.”
Meses depois do início dos trabalhos, Carlinhos afirma estar satisfeito com o resultado alcançado.
“Ah, eu tô muito feliz. Eu acho que ela tá bem legal. Assim, pro primeiro ano, pra uma pessoa que não fez nada, e é um mundo totalmente diferente, a evolução dela é passar pra ela um mundo mágico, que é o Carnaval.”
Para ele, um dos principais pontos de transformação foi a maneira como Virginia passou a se sentir mais confortável durante os movimentos.
“Eu acredito que agora ela está conseguindo evoluir porque ela está mais solta. Desde que essa conexão dela com o samba aconteceu, tudo mudou.”
O coreógrafo acredita que a influenciadora pode conquistar o público caso consiga transformar sua própria história em expressão corporal.
“Se ela conseguir passar um pouco da história dela no samba, ela é uma mulher muito guerreira, muito simples, muito linda. Se ela conseguir passar tudo isso em movimentos de dança, as pessoas vão gostar muito do que ela tem para oferecer.”
A repercussão também trouxe críticas, especialmente no início da parceria. Carlinhos admite que chegou a reagir aos comentários negativos.
“No começo eu até rebatia, eu respondia, eu ficava indignado.”
Com o tempo, porém, a relação com as críticas mudou.
“Agora só me dá a força de fazer mais e mais.”
O coreógrafo relembra ainda um momento que considera especial durante a preparação: a reação de Virginia após receber elogios pelo desempenho em um ensaio técnico.
“Ver o tanto de elogios que ela recebeu e ver a felicidade dela, ela estava muito feliz. Ver a felicidade dela foi gratificante demais.”
Para Carlinhos, aquele momento fortaleceu ainda mais a conexão construída durante os ensaios.
“E ela sentiu isso e isso foi mágico, esse momento nosso.”
A preparação de Virginia também chamou atenção pelo fato de Carlinhos ocupar o cargo de diretor artístico do Salgueiro enquanto treinava a rainha de bateria da Grande Rio.
Segundo ele, não houve resistência por parte da escola.
“Não, o presidente é super amigo do presidente de lá. Ele só deixou bem claro que eu não deixasse furo com o Salgueiro.”
Depois de mais de 30 anos vivendo os bastidores do Carnaval, Carlinhos resume em uma palavra o que considera essencial para quem deseja conquistar seu espaço na avenida: dedicação.
“O conselho é dedicação. Carnaval é muito difícil. É deixar viver a emoção e trabalhar com a razão. E aí, se souber dosar os dois, vai passar um Carnaval incrível”, finalizou.
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