O Ministério Público de São Paulo abriu um procedimento administrativo preparatório para apurar uma possível cobrança indevida relacionada à dívida do Corinthians com a Caixa Econômica Federal pela Neo Química Arena. A investigação teve início após uma representação que aponta uma divergência de aproximadamente R$ 255,75 milhões nos cálculos do débito.
A análise que deu origem ao procedimento foi realizada pelo perito Anísio Costa Castelo Branco a partir de dados públicos. Diante dos questionamentos, o MP-SP determinou a realização de uma perícia para verificar a evolução da dívida e identificar qual seria, de fato, o saldo devido pelo clube.
A dívida teve origem no financiamento contratado para a construção da Neo Química Arena. Em 2013, o Corinthians obteve junto à Caixa um crédito de até R$ 400 milhões relacionado aos recursos destinados à construção do estádio.
Com o passar dos anos, o débito sofreu a incidência de juros, correções e passou por diferentes renegociações. Em setembro de 2019, a Caixa entrou na Justiça contra a Arena Itaquera S/A, empresa responsável pelo estádio e da qual o Corinthians é sócio, cobrando cerca de R$ 536 milhões.
Segundo o banco, o montante incluía valores decorrentes do atraso de seis parcelas do financiamento, referentes ao período entre março e agosto daquele ano.
Na época, Corinthians e Caixa apresentavam números diferentes. O clube afirmava ter desembolsado aproximadamente R$ 170 milhões para o pagamento do financiamento e calculava o saldo devedor em cerca de R$ 487 milhões, já considerando juros e correções.
A Caixa, por outro lado, apontava uma dívida de R$ 536 milhões. A divergência levou as partes a negociarem uma nova estrutura para o pagamento do débito.
Em 2022, Corinthians e Caixa chegaram a um novo acordo, que estabeleceu a dívida em R$ 611 milhões, com previsão de financiamento até 2041.
O modelo definiu que os juros seriam pagos em parcelas trimestrais a partir de 2023, enquanto a amortização do valor principal começaria em 2025. Mesmo com os pagamentos realizados posteriormente, o saldo continuou sujeito às condições estabelecidas no contrato e às atualizações previstas.
Agora, uma nova análise técnica colocou novamente os valores sob questionamento.
Segundo a documentação apresentada ao Ministério Público, o saldo considerado correto pela análise seria de aproximadamente R$ 280,4 milhões. A cobrança atribuída atualmente à Caixa, por outro lado, estaria na casa dos R$ 700 milhões.
A diferença apontada chega a aproximadamente R$ 255,75 milhões e levanta questionamentos sobre a forma como a evolução do débito foi calculada.
O levantamento também questiona a documentação utilizada para justificar a atualização da dívida e recomenda que a Caixa seja chamada a apresentar o histórico completo da operação, permitindo uma análise detalhada de todos os valores cobrados e pagos.
O procedimento é conduzido pelo promotor Cássio Roberto Conserino e, neste momento, possui natureza não criminal.
De acordo com manifestação do próprio Ministério Público, caso a divergência seja confirmada, poderá ser analisada, em tese, uma eventual responsabilidade de dirigentes que tenham autorizado pagamentos considerados indevidos.
No entanto, a investigação ainda está em andamento e não concluiu que houve irregularidade. O principal objetivo neste momento é esclarecer se existe, de fato, um erro nos cálculos apresentados pela Caixa e qual seria o saldo correto da obrigação financeira.
A apuração ocorre em um momento delicado para as finanças do Corinthians.
De acordo com o balanço referente ao primeiro semestre de 2026, divulgado em 1º de setembro, o clube registrou uma dívida total de aproximadamente R$ 2,8 bilhões.
Desse montante, cerca de R$ 630 milhões estavam relacionados à Neo Química Arena, valor equivalente a aproximadamente 22,5% do passivo informado no documento.
A investigação do Ministério Público poderá, portanto, ter impacto relevante nas contas do clube caso seja confirmada uma diferença significativa entre o valor atualmente atribuído à dívida da arena e o montante que efetivamente deveria ser pago à Caixa.
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